11/07/2011

Nina e o Devorador de Sonhos


Nina e o Devorador de Sonhos

Nina, a menina dos cabelos dourados, morava numa pequena ilha calma e incandescente. Ela nasceu e cresceu esperando que um milagre, ou algo tipo, a levasse dali.
Os anos passavam, maldosos, e dias após dia sua esperança era assassinada. Algo em seu corpo era esmigalhado a cada pôr do sol. Tudo era odiosamente igual e o máximo que ela conseguia fazer era olhar, timidamente, para o horizonte.
Ela já tinha vinte e três, e aparentava um pouco mais, quando o vento de uma manhã cinza e fria lhe trouxe seu destino, num pequeno e velho barco de pescador. Um homem de olhar estranho e fala calma aportou na ilha, e Nina sentiu que sua vida mudaria, à partir daquele dia.
Inquieto o dia se arrastou e a noite caiu, silenciosa como sempre. Nina adormeceu e foi tomada por um sonho diferente de todos que já tivera. Era a revelação de seu caminho.
Antes mesmo que o sol tocasse a superfície da ilha ela correu para a pequena pousada onde o estranho homem havia passado a noite, e contou-lhe sobre seu sonho. A lua havia lhe dito, profeticamente, que aquele homem realizaria seu mais profundo desejo, e que eles deveriam partir o quanto antes, rumo à uma grande cidade, localizada à oeste da ilha. Ele ouviu tudo calmamente e, sem demonstrar espanto ou curiosidade, apenas concordou. Disse em poucas palavras que partiriam, estranhamente, naquela noite.
Ela sonhava, ele planejava.
Nina arrumou as poucas coisas que possuía e despediu-se de todos. Dizia, alegremente, que enfim havia chegado a hora de conhecer o mundo que existia longe dali.
Três horas depois de partirem, sobre o pequeno barco, sobre o mar dormente, o estranho homem tirou sua máscara de pele humana e, com sua habitual brutalidade, devorou Nina com seus dentes afiados.
Ele era o sábio devorador de sonhos, aquele que sabe o que todos sonham e, de uma maneira bastante peculiar, adora realizar desejos.
Apenas a lua foi testemunha. 

29/12/2010

Em Chamas

Em Chamas


E queima. O corpo, a alma, o futuro desnudo.
E queima. O sobejo físico químico orgânico.
Querer adormecer, querer girar. O querer ser, mais que estar.

Ensurdecedor ruído, microfonado. Inquietador silêncio, nos olhos.
As noites seqüenciais. A insistência. Quase desistência.
Os sinos brandos da capela
Repelem os sentidos. De novo.

Os abrigos de outrora? Por terra.
Os amigos de sempre? Arruinados. E cansados.
Os cânticos sacros não mais demonstram
A afeição empalidecida.

Os cachos capilares dourados, lindos e limpos
Sugerem diafaneidade. Correspondem a tal idade.
Voar? Intensificar? Calar? Fechar as janelas?
De qualquer forma, paradoxalmente.

E assim se fez o infinito, menos infame.
E assim se fará.
Queimando. Em chamas coradas.

26/04/2010

Ícaro


Ícaro

Não há princípio nem fim.
Não há razão ou falta dela.
Deixe-me, deseje-me,
Esqueça-me, recrie-me.

Doces mentiras, como tantas outras.
Hoje tão esquecidas, como tantas outras.
Exalte-me, crucifique-me,
Ajoelhe-se, odeie-me.

Sentindo a falta, a fadiga,
Travestido de um deus ateu.
Carregado, andarilho,
Insatisfeito, incompleto.

Na janela há um recado óbvio,
Ficar ou partir.
Deitado, desarmado,
Confuso, esquecido.

Como músicas inacabadas,
Como quadros quebrados,
Como poesias esquecidas,
Como filmes incompreendidos.
Sou.

11/04/2010

O Vácuo e o Tempo

O Vácuo e o Tempo


Velhos amigos,
Novos ritmos.
Velhas tentações,
Novas versões.

Eu e meus velhos métodos.
Novos sonhos enfumaçados.
Nossas velhas considerações,
Adquirimos novas aversões.

O bom e o velho álcool na garganta,
Os novos heróis desconhecidos.
As velhas e hilárias tosses,
As novas maneiras de escarro.

Semelhanças?

05/04/2010

Mãos Lentas


Mãos Lentas


Mãos tão lentas
Tentando mover o que ainda resta de seu mundo,
Que já não sabe se o pertence
Ou se a ele pertence.

Um dia tão calmo,
Com copos de café gelado.
Sem charme de notas de dólares
Nem feridas visíveis sobre a pele.

Pés tão cambaleantes
Lutando contra as calçadas tortas,
Surrando sapatos de mentira
E chegando ao lugar-nada.

Uma noite tão noite,
Daquelas que nos esquecemos.
De labaredas azuis
Queimando gravetos nas ruas da lua.

Vamos jogar cartas?
Vamos correr atrás de cometas?
Vamos acender cigarros?
Vamos nos fingir de mortos?

Já é mesmo tarde?
Ou ainda cedo demais?
Usualmente não durmo antes das seis.
Da tarde ou da manhã.

17/03/2010

O Habitante


O Habitante


Quantos castelos serão por suas mãos construídos?
Quantos deuses por sua fé serão evocados?
Quantas vezes por seu amor serei chamado?

Em seu ventre renascerei,
Em seus seios me alimentarei,
Em seus cabelos nadarei
Em direção aos céus de antigamente.

Desejo-te em elegante francês.
Odeio-te, te esqueço, por vinte minutos.
Em medos vãos, em vôos rasantes.

Em planos, em improvisos.
Devoro-te em dois dias,
Amo-te, te guardo, por trinta anos.

12/03/2010

Curta Poesia Inculta

Curta Poesia Inculta


Aceito-me. Açoito-me. Tenho em cores as dores vívidas de outrora
E em tela branca a presença do hoje.
Vagarosamente revivo a própria morte, nas infames e ilustres presenças
De meus deuses pequeninos.

Salvo-me. Despeço-me. Não há nada que me mude sem se mudar. Partir e repartir, com uma única camisa.
Ternamente, o ar que me permitem, eu respiro. Com estilo. E tempero
A desistência com iguarias de meu norte, meu próximo norte.

Num gole de café, de mar, de vodka. Num cigarro.  Com a voz embriagada, como um cão de madrugada.
Deito-me, corto-me. Quando a arte finda, linda, brevemente sorrio, em um silêncio de quem ninguém quer despertar.

Entre a noite e o dia, descubro os dissabores de ser eu. De ter sobrevivido. Sou novo, de novo. Em caos.
Canto-me, espanto-me, jogo-me, levanto-me.
Seguro-me fortemente em seu vestido. Verde.



Isto é Sobre um Céu de Desenho Animado

Isto É Sobre Um Céu de Desenho Animado Ela dorme em seda rosa E também em grama verde. E ela sabe tão pouco sobre o mundo Que at...